quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A soberania de Deus e o livre-arbítrio do homem

INTRODUÇÃO
À luz das Escrituras Sagradas, estudaremos a relação entre a soberania divina, o livre-arbítrio do homem e a salvação em Cristo. Para aplicarmos a doutrina da redenção, estudada na lição passada, é de suma importância que tratemos agora das doutrinas da eleição, presciência, vocação e predestinação.
As perguntas que não querem calar são: Deus predestinou uns para salvação e uns para perdição? Somos todos predestinados ou temos livre-arbítrio? O livre-arbítrio é compatível com a presciência de Deus? O homem pelo seu livre-arbítrio pode frustrar e alterar os planos de Deus para sua salvação? Essas e outras perguntas devem ser respondidas à luz da Bíblia.

DEFININDO OS TERMOS
SOBERANIA
– Dizer que Deus é soberano significa dizer que Deus criou e governa todas as coisas de maneira absoluta, inclusive no que diz respeito à salvação; que Ele possui todo poder no céu e na terra e ninguém pode resistir a sua vontade. (1 Cr 29.11; Jn 2.9; Ap 4.1).
LIVRE-ARBÍTRIO – é a “liberdade que o homem tem para agir conforme a própria vontade; autodeterminação”. É um princípio que declara que o homem é livre para tomar decisões, para decidir a questão do seu destino.
ELEIÇÃO – Ato soberano de Deus em graça, pelo qual Ele escolheu em Jesus Cristo para a salvação todos aqueles que de antemão sabia que O aceitariam (eleição no aspecto redentor).
PRESCIÊNCIA – que prevê o futuro; que sabe com antecipação.
VOCAÇÃO – o chamado de Deus. Ato de graça pelo qual Ele convida os homens a aceitarem pela fé a salvação providenciada por Cristo.
PREDESTINAÇÃO – predestinar e predeterminar significam a mesma coisa. É o exercício eficaz da vontade de Deus pelo qual as coisas de antemão determinadas por Ele são levadas a acontecer. Quando aplicada à redenção, isto significaria que, na eleição, Deus decidiu salvar aqueles que aceitarem Seu Filho e a salvação oferecida, e em predestinação Ele determinou eficazmente cumprir esse propósito.
FATALISMO – doutrina dos que, negando o livre-arbítrio, tudo atribuem à fatalidade ou ao destino.

A SOBERANIA DE DEUS E O LIVRE-ARBÍTRIO HUMANO
Desde Santo Agostinho até João Calvino (1509-1564) e em nossos dias, os assuntos relacionados à Soberania de Deus e a liberdade humana, têm deixado perplexos muitos filósofos, teólogos, pessoas comuns e muitos cristãos verdadeiramente leais a Cristo e às Escrituras. Muitos também não suportam a idéia de uns serem escolhidos para a salvação e outros serem rejeitados. Parece que o assunto predestinação causa mal estar em muitas pessoas. Imaginar que Deus também faz acepção de pessoas seria algo extremamente angustiante.

Analisando o Calvinismo e o Arminianismo.
Para Calvino a soberania de Deus predeterminou tudo quanto acontece. O Arminianismo opõe-se ao calvinismo, enfatizando a responsabilidade humana quanto à salvação, e negando que todas as coisas tenham sido preordenadas desde a eternidade. Por um lado o Calvinismo enfatiza demais a soberania de Deus ao ponto de ensinar que Deus preordenou nossas ações, e por outro lado o Arminianismo dá muita ênfase ao livre-arbítrio humano ao ponto de alguns arminianistas acreditarem que Deus não conhece ações futuras.
Graças a Deus a predestinação e o livre-arbítrio não são problemas insolúveis.

A predestinação e o livre-arbítrio têm gerado muitas discussões, porque os homens têm tentado explicar filosoficamente nos mínimos detalhes a conciliação da soberania de Deus e a liberdade humana.

O Arminianismo em resumo - pregava um tipo de auto-salvação, negava que o homem é depravado, e negava que Deus tem algum plano. Jacobus Arminius (1560-1609), discípulo de Beza (1519-1605), sucessor de Calvino, dedicou-se ao estudo das doutrinas calvinistas, a fim de combater mais eficazmente as idéias pelagianas. Entretanto, surpreendentemente chegou à conclusão de que o calvinismo estava errado, e passou a defender a posição que vinha atacando! Em 1610, após a morte de Arminio, seus seguidores produziram um memorial constituído de cinco pontos fundamentais: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos.

O Calvinismo em resumo - é o sistema teológico das Igrejas Reformadas, cuja expressão doutrinária oficial é a
Confissão de Fé de Westminster, redigida por determinação do parlamento inglês. Os trabalhos tomaram cinco anos e meio, terminando em 1648, deles participando 120 ministros ou teólogos, 11 “lords”, 20 “comuns” (alguns eram das universidades de Oxford e Cambridge) e 7 delegados da Escócia. Mas foi o Sínodo de Dort, em Dortrecht, na Holanda, reunido em 1618-1619, que teve o objetivo precípuo de contra-atacar o arminianismo. Foi ali que surgiram os “cinco pontos do calvinismo”, em resposta aos cinco pontos do memorial arminiano.

A ELEIÇÃO E A PRESCIÊNCIA DE DEUS
A eleição se refere ao ato pelo qual Deus escolheu, em Jesus Cristo, para a salvação todos aqueles que antecipadamente sabia que O aceitariam. Mas as escrituras também falam de eleição para privilégios exteriores (At 13.17; Rm 9.4; 11.28, Israel), e para uma tarefa particular (Moisés e Arão, Sl 105.26; Davi, 1Sm 16.12; 20.30; Salomão, 1Co 28.5; os Apóstolos, Lc 6.13-16; Jo 6.70; At 1.2,24; 9.15; 22.14).
A eleição com relação à salvação diz respeito à presciência de Deus. O homem não merecia, mas através da graça salvadora em Cristo, Deus escolheu salvar alguns. As Escrituras baseiam a eleição de Deus em sua presciência (Rm 8.29-30; 1Pe 1.1-2). Cabe ao homem a responsabilidade de aceitar ou rejeitar a salvação, e essa reação do homem é que determina a base da eleição, diante da revelação que Deus faz a seu próprio respeito. Em outras palavras, a humanidade está irremediavelmente morta em seus delitos e pecados e nada pode fazer para obter a salvação, então aparece a graça salvadora de Deus e elege para salvação os que aceitarem a Cristo.

ELEIÇÃO E PREDESTINAÇÃO
O sentido da predestinação aplicada à redenção, significa que, na eleição, Deus decidiu salvar aqueles que aceitarem Seu Filho e a salvação oferecida, determinando absolutamente cumprir esse propósito.
Não se encontra respaldo bíblico para apoiar o ensinamento em que Deus já tenha determinado o futuro individual de cada ser humano, isto é o que dizem os defensores da “predestinação fatalista”, que o homem quando nasce já está predestinado ao céu ou ao inferno conforme uma escolha prévia de Deus. Isto é absolutamente inaceitável.
Analisemos Efésios 1.4-5, Hebreus 5.9 e Tito 2.11...
O apóstolo Paulo se refere à presciência de Deus, um dos atributos divino é a onisciência, ou seja, Ele sabe e conhece todas as coisas e, nesse contexto, está incluída a presciência de Deus, que sabe todas as coisas antecipadamente. Como podemos ver em Ap 13.8, que havia um plano preparado antes da fundação do mundo para salvar o homem do inferno. É o mesmo sentido que Paulo quis trazer em Ef 1.4 “...nos elegeu nele antes da fundação do mundo”, dando a entender que Deus elegeu a Cristo, e todos os que aceitam Jesus Cristo hoje, por livre e espontânea vontade, automaticamente passam a participar do plano que foi elaborado por Deus antes da fundação do mundo.

Uma outra observação necessária é que Deus elegeu um povo e não um indivíduo. Ainda no mesmo texto diz “nos elegeu”, “para que fôssemos”, “e nos predestinou para filhos”, todas as afirmativas estão no plural, mostrando que a predestinação se refere a um grupo, a um povo, especificamente à Igreja que está destinada previamente para ir ao céu (1 Pe 2.9-10).
Somos predestinados por Deus para salvação porque somos parte da igreja.

Em Hb 5.9, observamos que Jesus Cristo “...é a causa de eterna salvação para aqueles que lhe obedecem”, ou seja, se uma pessoa não obedece a Jesus Cristo, e isso inclui segui-lo, andar com Ele, essa pessoa está predestinada ao inferno. Mas os que lhe obedecem e participa da Igreja está predestinado para ir ao céu.

Observe que Deus é justiça (Sl 119.137), sendo justo não escolheria uns e desprezaria outros; observe que Deus é amor, Ele amou o mundo (as pessoas, Jo 3.16-18), sendo amoroso ele enviou Jesus Cristo, e quem nEle crer não é condenado, mas quem não crer já está condenado. Ele também é misericórdia (Lm 3.22), sendo ele misericordioso não destrói pessoas previamente, pois ele não faz acepção de pessoas (Rm 2.6-11), de acordo com o proceder de cada um é que cada um será recompensado, isso tanto para o judeu quanto para o grego, porque Deus não faz acepção de pessoas (Rm 11.32).

EXISTEM OBJEÇÕES COM RESPEITO AOS ELEITOS
AS OBJEÇÕES MAIS SIMPLES:

a) Há a repetida declaração de que certos homens foram dados a Cristo (Jo 6.37; 17.2,6,9); REPLICA: Não há a menor indicação do que foi que levou Deus a dar certos homens e não outros, a Cristo. É provável que Ele tenha feito isso por causa do que Ele previu que eles fariam do que simplesmente para exercer a autoridade soberana.
b) Há ainda a declaração de que ninguém pode vir a Cristo “se o Pai... não o trouxer” (Jo 6.44); REPLICA: Em Jo 12.32, Jesus diz que quando for levantado da terra atrairá, “todos” a Si mesmo. A palavra “atrairá” do grego (helkuo) é usada para puxar uma rede (Jo 21.6,11), uma espada (Jo 18.10) e para arrastar uma pessoa à força, contra a vontade dela (At 21.30; 16.19; Tg 2.6). Concluímos que um poder emana da Cruz de Cristo que vai até todos os homens, embora muitos continuem a resistir a esse poder.
c) Há a declaração de que deus opera em nós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade (Fl 2.13). Assume-se que não há nada que um pecador possa fazer até que Deus opere essas coisas nele. REPLICA: O erro é o de aplicar o texto aos não salvos. Paulo falava aos filipenses que desenvolvessem a salvação com temor e tremor; Jesus disse abertamente a alguns dos judeus. “Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo 5.40), entende-se que se eles quisessem, poderiam.
d) Então em Rm 9.11-16 é dito que Deus havia escolhido Jacó ao invés de Esaú, mesmo antes de terem nascido e antes de terem feito ou bem ou mal. REPLICA: Observe que o texto não diz que Deus não sabia quem faria o bem e quem faria o mal. Esaú constantemente escolheu as coisas “profanas” da vida, e Jacó, apesar de estar longe de ser constante nas coisas de Deus no começo de sua vida, escolheu as coisas mais espirituais. A escolha de Jacó foi para privilégios externos e nacional: não foi uma escolha para salvação diretamente.

AS OBJEÇÕES MAIS DIFÍCEIS
a)
Assim lemos em Atos 13.48: “e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”; REPLICA: Knowling mostra que isto não pode se referir a um decreto absoluto, pois no versículo 46 Paulo já havia declarado que os judeus, por sua própria escolha, haviam rejeitado a mensagem, e ele não pôde estar querendo dizer nada mais que a escolha individual decidiu a questão da designação que Deus havia determinado àqueles que creriam.
b) Uma vez mais, Ef 1.5-8; 2.8-10 mostram a salvação como sendo originada na escolha de Deus e sendo toda da graça; REPLICA: Deus tem que tomar a iniciativa e Ele a toma mesmo. Se não fosse pela operação de Sua graça no coração do pecador, nenhum homem poderia ser salvo. A graça que chega antes não salva o homem, - ela simplesmente o capacita para escolher a quem vai servir.
c) Somos lembrados de que arrependimento e fé são dádivas de Deus (At 5.31; 11.18; 2 Tm 2.25; Ef 2.8-10; Rm 12.3); REPLICA: Parecia muito estranho se Deus chamasse a todos os homens em todo lugar ao arrependimento (At 17.30; 2 Pe 3.9) e a crer (Mc 1.14-15), quando apenas alguns podem receber a dádiva do arrependimento e da fé.
d) Alguns alegam que se a predestinação não for incondicional e absoluta, então todo o plano de Deus é incerto e sujeito a abortar. REPLICA: Isso só poderia ser se Deus tivesse previsto o que aconteceria e não tivesse adotado isso como Seu plano. Como Deus previu tudo o que vai acontecer, e aceitou estas eventualidade ao dar andamento ao plano das épocas, não ousamos dizer que Seu plano é incerto e sujeito a abortar. Seu plano é certo apesar de nem todos os eventos nele serem necessários.

POR QUE A ELEIÇÃO NÃO É INDIVIDUAL?
1. Porque a eleição é baseada na presciência de Deus. Isto está de acordo com a Escritura (Rm 8.28-30; 1Pe 1.1-2). Dizer que Deus tinha presciência de todas as coisas porque ele havia arbitrariamente determinado todas as coisas, é ignorar a diferença entre os decretos absolutos e os permissivos de Deus. Apenas algumas pessoas das que se apegam a idéia de “eleição incondicional” ensinariam que Deus é a causa eficaz do pecado; praticamente todas concordariam que Deus meramente permitiu que o pecado entrasse no universo, e todas admitiriam que Ele sabia de antemão que ele entraria antes de jamais ter criado coisa alguma.
2. Porque Cristo morreu por todos os homens. Como já foi visto, nosso Senhor morreu por todos em um sentido real. Veja (1 Tm 2.6; 2Pe 2.1; Hb 2.9; 1Jo 2.2). harmonizando-se a isto está Seu desejo expresso de que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento (2Pe 3.9), ver Ez 18.32.
3. Por causa da Justiça de Deus. Admite-se que Deus não tem a menor obrigação de prover salvação par quem quer que seja, pois todos são responsáveis por seu atual estado de perdição. Mas é difícil ver como Deus pode escolher alguns dentre a massa de homens culpados e condenados, providenciar salvação para eles e eficazmente conseguir a sua salvação, e nada fazer por todos os outros, se, conforme lemos, justiça é o fundamento de Seu trono. Parece-nos que somente se Deus fizer a mesma provisão para todos e fizer as mesmas ofertas a todos é que Ele será verdadeiramente justo. Podemos afirmar que a responsabilidade pelas oportunidades apresentadas ao povo tem que descansar, pelo menos em parte, sobre o povo de Deus, que foi comissionado a levar o Evangelho a toda a criatura (Ez 3.17-19).
4. Porque inspira atividade missionária. Cristo enviou seus discípulos por todo o mundo, e os instruiu a pregar o Evangelho a toda criatura. Se, então, a eleição significar que todos aqueles a quem Deus escolheu arbitrariamente irão certamente para o céu, e que aqueles a quem Ele não escolheu arbitrariamente não irão para lá, não importa quão freqüente e fielmente seja o Evangelho pregado a eles, então porque se agitar tanto por causa disso? Temos é verdade, a ordem de levar o evangelho a todo o mundo; mas se apenas alguns forem assim “eleitos”, por que se preocupar tanto com isso?

A VOCAÇÃO
Concluímos falando sobre a doutrina da vocação. Esta é a doutrina do chamado de Deus, como ato de graça pelo qual Ele convida os homens a aceitarem pela fé a salvação providenciada por Cristo. Observe que a salvação é oferecida a todos:
- Aos “predestinados” (Rm 8.30), a todos que “estão cansados e sobrecarregados” (Mt 1.28), a “todo aquele que crê”, etc. (Jo 3.15, 16; 4.14; 11.26; Ap 22.17), aos “confins da terra” (Is 45.22; Ez 33.11; Mt 28.19; Mc 16.14; Jo 12.32; 1Tm 2.4; 2Pe 3.9), e a “quantos encontrardes” (Mt 22.9).
Deus não chama o homem para reforma de vida, para as boas obras, para o batismo, para serem da igreja, etc., todas essas coisas são apropriadas em si mesmas, mas são simplesmente o fruto certo daquilo para o qual Ele os chama. Porém Deus chama o homem para o arrependimento (Mt 3.2; 4.17; Cm 1.14,15; At 2.38; 17.30; 2Pe 3.9), para a fé (Mc 1.15; Jo 6.29; 20.30,31; At 16.31; 19.4; Rm 10.9; 1Jo 3.23).

Palestras em Teologia Sistemática – Henry Clarence Thiessen


A verdade sobre a predestinação - César F. Raymundo

3 comentários:

Thiago C. disse...

é verdade Jean... Recebi bastante visitas... Obrigado pela força... Deus te abençoe...

Quando der, vou te linkar também la no meu blog.

Abraços

Thiago
www.gospelrio.blogspot.com

Francisco Rocha Diniz disse...

Parabéns, por essa matéria. Pois estamos precisando reforçar as nossas "Confissões de Fé". Especialmente sobre a Doutrina do Livre-Arbítrio e a Soberania de Deus que me parece serem muito reduzida o seu material em comparação com as de nossos irmãos reformados que sabem e defendem o que crêem. Que Deus te abençoe e te guarde. Irmão Diniz. Fique na paz

Emerson disse...

Nunca vi tanta distorção de conceitos reunida num só artigo. DEUS elege os que ele sabia que o aceitariam? Onde já se viu isto!!!!